Terreno onde ficava a casa em que a cápsula de césio-137 foi aberta, em Goiânia. Foto: Ycaro Gouveia Ribeiro (domínio público), via Wikimedia Commons
Uma cadeira, e sobre ela uma réplica da cápsula que continha o césio-137. A cena, que remete a um dos momentos mais marcantes do maior acidente radiológico do Brasil, foi reproduzida nesta segunda-feira (28) em quatro pontos de Goiânia. A intervenção urbana “Áspera espera”, do artista visual e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) Glauco Gonçalves, homenageia Maria Gabriela Ferreira, uma das quatro vítimas fatais da tragédia.
Por que 28 de setembro
A data não foi escolhida por acaso. Em 28 de setembro de 1987, Maria Gabriela percebeu que as pessoas à sua volta estavam adoecendo, pegou o material radioativo, subiu em um ônibus e o levou até a Vigilância Sanitária. Lá, um funcionário colocou a peça sobre uma cadeira. O gesto permitiu que as autoridades descobrissem a contaminação e começassem a enfrentá-la. É dessa cena que vem o nome da obra.
Para o artista, a data de 13 de setembro, quando dois catadores encontraram o aparelho de radioterapia, costuma ser apresentada como o início da tragédia, mas a história deveria começar a ser contada pelo abandono do equipamento pela clínica. Segundo ele, sem a atitude de Maria Gabriela não se sabe quantas pessoas mais teriam morrido.
Os quatro pontos
- Centro de Convenções: onde funcionava o antigo Instituto Goiano de Radioterapia, de cujas ruínas o aparelho foi retirado;
- Rua 57: endereço da casa para onde o equipamento foi levado e onde a cápsula foi aberta;
- Rua 26-A: onde ficava o ferro-velho que comprou a peça e de onde o material foi distribuído a parentes e amigos;
- Em frente ao Palácio das Esmeraldas: sede do governo estadual, escolhida como provocação ao poder público.
Contra o esquecimento
Glauco afirma que a obra é um gesto de reparação histórica a uma mulher que, na avaliação dele, nunca recebeu o reconhecimento devido. A espera do título, diz, também é a das vítimas sobreviventes, das famílias dos mortos e dos policiais, bombeiros, profissionais de saúde, garis e motoristas que trabalharam na emergência e ainda aguardam acompanhamento e reconhecimento. “Já não se trata de combater a emissão de radiação, mas de combater a produção da amnésia”, disse ao portal Mais Goiás.
As cadeiras ficarão nos locais por tempo indeterminado, até que alguém decida retirá-las. O possível sumiço das peças, segundo o artista, também faz parte da intervenção, numa referência ao abandono da cápsula radioativa que deu origem à tragédia, há 39 anos.
Com informações de: Mais Goiás



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