Ademar Ferrugem e Hidasi József – (Foto: arquivo pessoal)
Ademar Ferrugem foi morto no conflito, enquanto Hidasi József ficou seis meses preso em um campo de concentração nazista
A atuação de goianos em grandes conflitos armados ganhou projeção internacional com o recente envolvimento de goianos na Guerra da Ucrânia. Mateus Santos, de Rio Verde, e Kauan da Silva, de Anápolis, lutaram respectivamente por Rússia e Ucrânia, de modo a entregarem suas vidas a essas frentes de batalha antagônicas, apesar de compartilharem nacionalidade e naturalidade. Com mortes confirmadas entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, eles não foram os primeiros goianos em zonas de guerra no antigo continente. A participação de combatentes de Goiás em zonas de guerra do exterior remonta a Segunda Guerra Mundial. Conheça a história de Ademar Ferrugem e de Hidasi József.
Entre os representantes de Goiás no maior e mais sangrento conflito da história estão o pedreiro Ademar Ferrugem e o ornitólogo e taxidermista Hidasi József. Esse último, de nacionalidade húngara, tendo se naturalizado brasileiro e recebido o título de cidadão goiano após conseguir fugir de um campo de concentração nazista.
Após mais de 80 anos desde que o Brasil declarou guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista, os nomes deles seguem não só no imaginário, mas também na história do Estado. Por sua participação, Ademar foi homenageado com uma avenida em seu nome, em Goiânia, além de um espaço em um museu em Catatão, onde nasceu. Hidasi, por outro lado, colocou Goiás no mapa científico mundial, após deixar um acervo de mais de 20 mil animais empalhados no Estado, assim como em Mato Grosso, Pernambuco, Pará e Sidney, na Austrália.
Ademar Ferrugem
A história de Ademar na guerra começou quando Getúlio Vargas vivia sua primeira era no poder, enviando 25 mil pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) ao território italiano – única frente da América do Sul nos campos de batalha da Europa durante o conflito.
Entre os “Cobras Fumantes” – apelido dado aos pracinhas – estava o soldado goiano. Antes de ingressar no Exército como voluntário do Brasil no conflito armado, Ferrugem trabalhou como pedreiro em Goiânia, consoante a explicação da sobrinha dele, Cármen Lúcia, ao Mais Goiás.
“Ele tinha 24 anos e se dispôs a se voluntariar pelo país, quando ficou sabendo da guerra. Ele foi para São Paulo, em Sorocaba, e ficou três meses lá treinando com o Exército. Depois ele foi de navio para Itália”, revela.
Contrariou a família
Para se juntar à FEB, o soldado deixou a mãe, o pai, oito irmãos e a noiva, contrariando a família que tentou evitar que fosse à guerra. Buscando combater o maior genocídio já registrado, Ferrugem deixou Goiás em 1942 – mesmo ano que o Brasil entrou no conflito global após a morte de 607 pessoas em seguidos ataques do Eixo (Alemanhã, Itália e Japão) a navios brasileiros em uma área do Atlântico, que vai da costa leste norte-americana ao Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África.
Buscando confortar a família, Ferrugem escrevia cartas da Itália, destinadas principalmente à mãe, em Goiânia, de acordo com Carmen. Nos manuscritos, ele não dava detalhes da guerra, mas afirmava que estava bem e com saudades dos parentes, sempre reforçando que iria voltar para casa.
O fim da promessa
A promessa, porém, não foi cumprida. O soldado e ex-pedreiro acabou morto com um tiro de fuzil no estômago em 3 de novembro de 1945, quatro meses depois do Brasil declarar guerra ao Japão. A essa altura, Ferrugem já havia participado da conquista do Monte Castelo, chamado de “morro maldito”, em uma campanha que durou três meses, até a vitória em fevereiro de 1945 – maior feito dos pracinhas na 2º Guerra.
Para conquistar o território, os Aliados precisavam vencer a chamada Linha Gótica, uma barreira das tropas nazistas alemãs. Os brasileiros tiveram de percorrer uma rota exposta ao fogo dos inimigos. As seguidas tentativas resultaram em um grande número de baixas para o país, que teria acumulado cerca de 450 soldados mortos em todo o conflito.
Notícia da morte
“Meu pai foi até onde ele [Ferrugem] trabalhava e pegou um telegrama informando que ele havia falecido em batalha. Ele levou um choque muito grande, minha mãe estava coando café e começou a chorar. Perguntaram se ela queria que trouxessem os restos mortais dele para Goiânia, mas ela falou que não, que era para enterrar ele junto com os outros pracinhas no memorial do Rio de Janeiro”, conta Maria da Glória Ferrugem Bonfim, de 87 anos, irmã do soldado.
Maria conta que o irmão tinha uma forte ligação com os pais, especialmente com a mãe, com quem deixou os cuidados sobre responsabilidade dela. A idosa morreu aos 104 anos, mesma idade que Ferrugem teria atualmente, caso estivesse vivo.
Reconhecimento como combatente
A atuação do ex-pedreiro foi reconhecida depois de 20 anos da sua morte. O então prefeito de Goiânia, Iris Rezende, homenageou o soldado renomeando a Avenida Paraíba para Avenida Ademar Ferrugem, no Setor Campinas, em 1965. O ex-pedreiro também foi homenageado na cidade natal, Catalão, tendo uma rua batizada com o nome.
Além disso, o comunicado da morte dele e uma foto estão expostos no Museu Histórico Municipal Cornélio Ramos. Além das homenagens que tornaram o sobrenome Ferrugem conhecido, a família também foi agraciada com uma pensão deixada pelo militar, que ficou em nome de Maria.
“A família toda é orgulhosa [de Ferrugem]. Ele foi motivo de orgulho. Onde vou, digo que meu nome é Ferrugem. A gente sempre propaga o nome dele”, concluiu.

Hidasi József
Assim como Ferrugem, Hidasi também atuou na linha de frente da guerra contra o nazismo. Natural de Makó, na Hungria, Hidasi foi paraquedista no exército da Hungria por um ano. Entretanto, ele foi capturado pelos inimigos e acabou em um campo de concentração em 1943. Depois de seis meses, ele conseguiu fugir do local e viveu em campos de refugiados até conseguir vir para o Brasil em 1960.
“Escapou do campo nazista através de uma janela do banheiro no alojamento, que só cabia só a cabeça dele. Ele atravessou a Europa só comendo maçã para sobreviver porque era um refugiado. Chegou a morar em campos de refugiados na França e depois conseguiu a documentação para embarcar para o Rio de Janeiro. Lá, para sobreviver, ele empalhava animais, como jacarés, e vendia para as lojas voltadas para os turistas”, narra o advogado ambientalista Roberto Hidasi, filho do taxidermista e professor.
Roberto destaca que a vida do seu pai mudou quando ele recebeu uma oportunidade para trabalhar com a Fundação Brasil Central (FBC), uma instituição para explorar locais inabitados no centro do país, incluindo o estado de Goiás. A fundação estava desbravando o interior do país e tinha uma base operacional em Barra do Garças (Mato Grosso) e Aragarças (Goiás).
Precursor da taxidermia no Brasil
Um dos precursores da técnica no Brasil, o Hidasi posteriormente se mudou para Goiânia, de onde publicou três livros a respeito do trabalho. Ele morreu aos 95 anos, em 2021. Segundo o filho, o taxidermista teve mais de 50 anos de atuação nas suas áreas de estudo e, na capital, fundou o primeiro museu zoológico de Goiás.
“Ele pegou 50 animais vivos e foi para Goiânia com um avião da FAB (Força Aérea Brasileira). Esses animais vieram do Cerrado, coletados nas expedições da FBC”, reforça.
Na capital, ele doou mais de 20 mil peças de taxidermia para estudo, sendo a maioria (15 mil) apenas para a Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Hidasi também ajudou a fundar museus em outras cidades do Brasil, como Palmas, no Tocantins, e Fortaleza, no Ceará.
Acervo em outros países
O acervo do húngaro também está exposto em outros países, incluindo o Museu de História Natural da Austrália e a Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos.
“Algumas das peças mais inusitadas incluem um bezerro de duas cabeças, um frango com quatro pernas e um galango com dois rabos. Ele empalhou também o famoso jacaré Jacinto, conhecido por sua agressividade, que foi exposto no zoológico de Goiânia”.

Fonte: Mais Goiás



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