A Vitreorana micaelae mede pouco mais de 2 centímetros e é quase transparente. Foto: Afonso Meneses/Divulgação
Uma rã minúscula, esverdeada e quase transparente, encontrada em Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, é uma espécie nova para a ciência. Batizada de Vitreorana micaelae, ela foi descrita por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Universidade de Brasília (UnB), em estudo publicado na edição de setembro da revista científica ZooKeys.
A rã vive nas matas de galeria que margeiam pequenos riachos afluentes do Rio Corumbá. É a 11ª espécie conhecida do gênero das rãs-de-vidro, das quais apenas quatro ocorrem no Brasil, e a segunda que só existe no Cerrado. O grupo costuma estar associado à Mata Atlântica e à Amazônia.
Como a descoberta foi feita
A equipe, liderada pelo biólogo Wilian Vaz-Silva, desconfiou que os animais eram diferentes das espécies já catalogadas e decidiu investigar. Os pesquisadores gravaram o canto, compararam os exemplares com outras rãs-de-vidro e cruzaram análises de morfologia, bioacústica e genética molecular com o trabalho de campo.
O resultado mostrou um material genético distinto e diferenças sutis, mas consistentes, na forma da íris, na pigmentação do dorso e na anatomia. O canto também é diferente, com bem menos notas, segundo o biólogo Reuber Brandão, um dos autores do estudo e integrante da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza da Fundação Grupo Boticário. Em 2013, outros pesquisadores chegaram a registrar a rã na região, mas a confundiram com uma espécie já conhecida, a Vitreorana eurygnatha.
Difícil de encontrar
O que ajuda a explicar por que a espécie passou despercebida é o seu comportamento: ela canta no alto de árvores, em barrancos inclinados à beira dos rios, e apenas durante chuvas fortes. Com pouco mais de 2 centímetros e populações espalhadas, nem os moradores da região têm um nome popular para ela.
Na reprodução, o casal deposita os ovos grudados em folhas de árvores altas, e o macho vigia a desova. Quando os girinos nascem, caem no riacho logo abaixo e se enterram no sedimento.
Espécie já ameaçada
O estudo recomenda que a espécie seja classificada como “Dados Insuficientes” na lista da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), porque ainda não se sabe o tamanho das populações nem as ameaças que enfrentam. Depois da publicação, a equipe encontrou a rã numa terceira localidade do Cerrado, dado ainda em análise.
Os pesquisadores tratam o trabalho como uma corrida contra o tempo. Mudanças climáticas que alteram o regime de chuvas, o desmatamento e o represamento de rios por pequenas hidrelétricas atingem diretamente o habitat de anfíbios como essa rã. Para Brandão, menos chuva significa menos riachos, menos anfíbios e menos descobertas.
O nome homenageia a bióloga Micaela de Jolepian L. Vaz, esposa de Wilian Vaz-Silva.
Fonte: Agência Brasil



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